sábado, 25 de abril de 2015

Parte um

Eu sou aquela sentada em frente à janela. Sinto a chegada da chuva. Aquela a qual não posso ver. Mas posso sentir. Eu a sinto. Eu a sinto lavar a cidade. Lavar as almas. Lavar a tristeza dos moradores de rua. Lavar a solidão dos que não tem amor. Lavar o coração. Então eu escuto o chiado. É ela. É a chuva. Já nem me lembro a ultima vez que ouvi o seu som. Som de árvores molhadas, que eu não posso ver. E tem alguém lá fora que a aprecia. Que a encara sem guarda chuva. Que se molha. Que dança. Essa sou eu. Essa é minha mente imaginando como seria. Dançar, ver o céu. Ver a chuva. A cegueira não me impede de imaginar, de sonhar. E eu danço na chuva. E eu a vejo. Eu a vejo com o coração.
Queria poder vê-la. Mas não posso. Contento-me com seu som. Som reconfortante. Lembro-me de quando eu ainda enxergava. Arrependo-me de bloquea-la com o guarda-chuva. Eu ficava pulando nas poças, girando na chuva. Queria poder repetir isso. Mas queria poder vê-la cair. Sozinha. Chuva quer dizer ficar dentro de casa, tomando chá ou chocolate quente, lendo um bom livro ou vendo um filme debaixo da coberta. Mas eu quero ir lá fora, enfrentar a friagem, enfrentar a tempestade aterrorizante. Ver os raios cruzarem o céu bem a minha cabeça. Mas não posso vê-los. Mas posso ouvi-los. Trovões. Eu necessito da chuva. Como criança necessita de amigos, de diversão. Essa é minha diversão, meu entretenimento. Sentir ela tão fria, arrepiar meu corpo. Deixar a chuva levar embora tudo de ruim que me persegue. Carregar consigo todos os meus males. Quem sabe leve a cegueira com ela. Quem dera. Se a sentisse agora...
- Poderia ficar doente filha – disse minha mãe quando eu a pedi para me levar até a chuva.
- Por favor, mãe, eu preciso disso, você não tem noção – disse sentindo meus olhos marejarem para se caso ela negasse – Há tanto tempo não posso me molhar nela.
Levou um tempo em silêncio no quarto. O quarto de onde passo todos os dias. O          quarto a qual nem posso ver.
- Tudo bem Gabriela, mas olha só por um tempinho, está bem.
- Tudo bem – disse abrindo um sorriso.
A tempo esqueci-me de sorrir.
A chuva estava fria, mas tão maravilhosa. Posso ficar tempos sem vê-la. A chuva muda. A chuva cega. A chuva deprimente. A chuva consoladora. Minha mãe deve ter percebido o quanto amei poder ficar aquele curto tempo do lado de fora. Senti sua mão na minha. Minha mãe tenta de todas as formas me deixar feliz. Até enfrentar a chuva.
Eu não pude deixar de chorar. Tudo se misturou naquele momento. A perda da visão. O abandono do meu pai biológico. O abandono de alguns amigos. A solidão. A depressão. O acolhimento dos meus avós. Da minha mãe e meu pai adotivo, que também é tudo pra mim. O casamento da minha mãe, que eu nem pude vê-la vestida. Eu queria tanto vê-la de noiva. Pude somente ter uma breve noção. Minha mãe sabia a importância e me explicou cada parte do vestido. Cada detalhe. Minha mãe é tudo, por ser psicóloga está sempre ciente do que é melhor para mim. Meu pai adotivo, o Paulo. Ama-me como se eu fosse filha biológica. Eu o amo. Ele cuida de mim desde os meus 10 anos, hoje tenho 16. A Retinose Pigmentar se fez totalmente presente em final dos meus 9 anos. Memórias se passam pela minha cabeça. O dia em que meu pai abandonou minha mãe para ficar com sua outra mulher. Minha mãe passou pelo pior momento da vida dela. Eu só tinha 6 anos. Mas eu entendia. Minha mãe deixou sua dor de lado para cuidar da minha. Ela se fortaleceu a me ver fortalecida. E eu posso me fortalecer ao ver ela feliz. Eu tento ser forte por ela. Eu preciso resistir. Preciso provar para mim e para o mundo que minha vida não acabou. Eu ainda estou aqui. Eu não quero apenas existir, quero viver. Quero voltar a ter sonhos, quero voltar a sair. Quero ser uma pessoa com rotinas comuns. Quero viver independentemente da minha dor. Eu vou vencê-la. Só não posso desistir do que quero.
- Bia – disse minha mãe, me chamando pelo meu apelido – Vamos.
Ela me abraçou e me levou junto de si para dentro de casa. Eu estava toda molhada. Mas gostei disso. Gostei de me jogar na chuva. Segui direto pela sala, até alcançar a porta do banheiro. A fechei atrás de mim. Encaminhei-me rapidamente ao Box. Em instantes a água morna me invade. Acalmando-me. Diferente da chuva. Ela cai quente, a chuva é fria. Não sei qual te faz cair na realidade primeiro. Eu poderia ficar toda a eternidade ali. Debaixo daquela água. Sentindo sua leveza. Mas não posso. Termino o banho, me seco e coloco uma roupa de frio que minha mãe me dera. O sofá fica a uma breve distancia da porta do banheiro então, não tive dificuldade alguma em acha-la. Jogo-me nele. A exaustão tenta me carregar, mas resisto. Não sou tão fácil assim de se deixar vencer pelo sono. Sempre quando acordo também não tenho tanta ansiedade. Sei o que virá a seguir. Sei que o dia será o mesmo de ontem. Escuridão. Escuridão. Escuridão.
- Gabriela sua avó está vindo te ver.
- Ok mãe.
Fiquei ali no sofá deitada, esperando minha avó chegar, por um bom tempo. Fiquei ouvindo o barulho da chuva na varanda. Batendo tão violenta. Molhando a grama recém-cortada pelo meu pai. Levei um tempo a escutando. É bom parar para prestar atenção aos mínimos detalhes. Nunca fiz isso quando podia enxergar. Se eu ainda tivesse a visão talvez nesse momento estaria entretida com a televisão ou o computador. Como as coisas mudam de uma hora para a outra...
Quando estava quase dormindo ouço, a campainha tocar. Minha
avó. Ouço a porta ser aberta. E o barulho da chuva aumenta. A porta abafara seu som.

Passamos toda à tarde no sofá, comendo os biscoitos que minha mãe havia feito. Minha avó era uma boa companhia para um dia de chuva. Pois ela sempre trás um livro, quando o vovô não está. Às vezes vem os dois me visitarem, mas na maioria das vezes vem minha avó. Ela se importa tanto comigo. Aprendeu a leitura em Braille para que todos os livros que trouxesse pudessem ficar para mim. Minha avó trouxera um novo livro, e não se importava em ler ele para mim. 

quarta-feira, 11 de março de 2015

Apresentação


Olá Soreaticks e Não-Soreacticks ;) 
Eu Lorenna, sou a dona da A Tal Garota Cega, que ainda é uma fanfic mas, conforme for, esse ano ainda de 2015 chegará as livrarias.
E como todos do Instagram da fic ficam perguntando rs' sim gente eu tenho 14 anos. Imaginação em andamento. Bem, creio que A Tal Garota Cega será uma trilogia ou uma saga, não sei ao certo ainda. Somente sei que não será somente 1 livro. 
Terá bastante "tretas", Mas e ai se não leu, leia. Creio eu que não irão se arrepender. Ao começar a escreve eu quis criar algo meu, algo que não copiasse os best-sellers que estão fazendo sucesso agora, não queria falar sobre câncer por que já temos A Culpa é Das Estrelas, não quis falar tanto de sobrevivência por que temos Jogos Vorazes. Nem de vampiros, magia, bruxos. Eu quis fazer algo que eu mesma me identificasse. Criei a Bia para mostrar que mesmo cega - mesmo com qualquer outra doença - o importante é ser feliz, viver. 
E A Tal Garota Cega é uma ficção, não-ficção. E terá muitos mistérios pela frente, e a maioria será totalmente explicados na sequencia. 
Então pessoas <3 Por enquanto é isso, postarei as partes aqui no blog, assim que possível, ah e comentários são fundamentais ;) Digam se está lendo, o que está achando, se preciso mudar, atenderei todos pedidos e responderei aos comentários ^^
Beijos Soreaticks <3