Eu sou aquela sentada em frente à janela. Sinto a chegada
da chuva. Aquela a qual não posso ver. Mas posso sentir. Eu a sinto. Eu a sinto
lavar a cidade. Lavar as almas. Lavar a tristeza dos moradores de rua. Lavar a
solidão dos que não tem amor. Lavar o coração. Então eu escuto o chiado. É ela.
É a chuva. Já nem me lembro a ultima vez que ouvi o seu som. Som de árvores
molhadas, que eu não posso ver. E tem alguém lá fora que a aprecia. Que a
encara sem guarda chuva. Que se molha. Que dança. Essa sou eu. Essa é minha
mente imaginando como seria. Dançar, ver o céu. Ver a chuva. A cegueira não me
impede de imaginar, de sonhar. E eu danço na chuva. E eu a vejo. Eu a vejo com
o coração.
Queria poder vê-la. Mas não posso. Contento-me com seu
som. Som reconfortante. Lembro-me de quando eu ainda enxergava. Arrependo-me de
bloquea-la com o guarda-chuva. Eu ficava pulando nas poças, girando na chuva.
Queria poder repetir isso. Mas queria poder vê-la cair. Sozinha. Chuva quer dizer
ficar dentro de casa, tomando chá ou chocolate quente, lendo um bom livro ou
vendo um filme debaixo da coberta. Mas eu quero ir lá fora, enfrentar a
friagem, enfrentar a tempestade aterrorizante. Ver os raios cruzarem o céu bem
a minha cabeça. Mas não posso vê-los. Mas posso ouvi-los. Trovões. Eu necessito
da chuva. Como criança necessita de amigos, de diversão. Essa é minha diversão,
meu entretenimento. Sentir ela tão fria, arrepiar meu corpo. Deixar a chuva
levar embora tudo de ruim que me persegue. Carregar consigo todos os meus
males. Quem sabe leve a cegueira com ela. Quem dera. Se a sentisse agora...
- Poderia ficar doente filha – disse minha mãe quando eu
a pedi para me levar até a chuva.
- Por favor, mãe, eu preciso disso, você não tem noção –
disse sentindo meus olhos marejarem para se caso ela negasse – Há tanto tempo
não posso me molhar nela.
Levou um tempo em silêncio no quarto. O quarto de onde
passo todos os dias. O quarto a
qual nem posso ver.
- Tudo bem Gabriela, mas olha só por um tempinho, está
bem.
- Tudo bem – disse abrindo um sorriso.
A tempo esqueci-me de sorrir.
A chuva estava fria, mas tão maravilhosa. Posso ficar
tempos sem vê-la. A chuva muda. A chuva cega. A chuva deprimente. A chuva
consoladora. Minha mãe deve ter percebido o quanto amei poder ficar aquele
curto tempo do lado de fora. Senti sua mão na minha. Minha mãe tenta de todas
as formas me deixar feliz. Até enfrentar a chuva.
Eu não pude deixar de chorar. Tudo se misturou naquele
momento. A perda da visão. O abandono do meu pai biológico. O abandono de
alguns amigos. A solidão. A depressão. O acolhimento dos meus avós. Da minha
mãe e meu pai adotivo, que também é tudo pra mim. O casamento da minha mãe, que
eu nem pude vê-la vestida. Eu queria tanto vê-la de noiva. Pude somente ter uma
breve noção. Minha mãe sabia a importância e me explicou cada parte do vestido.
Cada detalhe. Minha mãe é tudo, por ser psicóloga está sempre ciente do que é
melhor para mim. Meu pai adotivo, o Paulo. Ama-me como se eu fosse filha
biológica. Eu o amo. Ele cuida de mim desde os meus 10 anos, hoje tenho 16. A
Retinose Pigmentar se fez totalmente presente em final dos meus 9 anos.
Memórias se passam pela minha cabeça. O dia em que meu pai abandonou minha mãe
para ficar com sua outra mulher. Minha mãe passou pelo pior momento da vida
dela. Eu só tinha 6 anos. Mas eu entendia. Minha mãe deixou sua dor de lado
para cuidar da minha. Ela se fortaleceu a me ver fortalecida. E eu posso me
fortalecer ao ver ela feliz. Eu tento ser forte por ela. Eu preciso resistir.
Preciso provar para mim e para o mundo que minha vida não acabou. Eu ainda
estou aqui. Eu não quero apenas existir, quero viver. Quero voltar a ter
sonhos, quero voltar a sair. Quero ser uma pessoa com rotinas comuns. Quero
viver independentemente da minha dor. Eu vou vencê-la. Só não posso desistir do
que quero.
- Bia – disse minha mãe, me chamando pelo meu apelido –
Vamos.
Ela me abraçou e me levou junto de si para dentro de
casa. Eu estava toda molhada. Mas gostei disso. Gostei de me jogar na chuva. Segui
direto pela sala, até alcançar a porta do banheiro. A fechei atrás de mim.
Encaminhei-me rapidamente ao Box. Em instantes a água morna me invade.
Acalmando-me. Diferente da chuva. Ela cai quente, a chuva é fria. Não sei qual
te faz cair na realidade primeiro. Eu poderia ficar toda a eternidade ali. Debaixo
daquela água. Sentindo sua leveza. Mas não posso. Termino o banho, me seco e
coloco uma roupa de frio que minha mãe me dera. O sofá fica a uma breve
distancia da porta do banheiro então, não tive dificuldade alguma em acha-la.
Jogo-me nele. A exaustão tenta me carregar, mas resisto. Não sou tão fácil
assim de se deixar vencer pelo sono. Sempre quando acordo também não tenho
tanta ansiedade. Sei o que virá a seguir. Sei que o dia será o mesmo de ontem.
Escuridão. Escuridão. Escuridão.
- Gabriela sua avó está vindo te ver.
- Ok mãe.
Fiquei ali no sofá deitada, esperando minha avó chegar,
por um bom tempo. Fiquei ouvindo o barulho da chuva na varanda. Batendo tão
violenta. Molhando a grama recém-cortada pelo meu pai. Levei um tempo a
escutando. É bom parar para prestar atenção aos mínimos detalhes. Nunca fiz
isso quando podia enxergar. Se eu ainda tivesse a visão talvez nesse momento
estaria entretida com a televisão ou o computador. Como as coisas mudam de uma
hora para a outra...
Quando estava quase dormindo ouço, a campainha tocar.
Minha
avó. Ouço a porta ser aberta. E o barulho da chuva
aumenta. A porta abafara seu som.
Passamos toda à tarde no sofá, comendo os biscoitos que
minha mãe havia feito. Minha avó era uma boa companhia para um dia de chuva.
Pois ela sempre trás um livro, quando o vovô não está. Às vezes vem os dois me
visitarem, mas na maioria das vezes vem minha avó. Ela se importa tanto comigo.
Aprendeu a leitura em Braille para que todos os livros que trouxesse pudessem
ficar para mim. Minha avó trouxera um novo livro, e não se importava em ler ele para mim.